Gente de Jeri · GDJ-01

O menino que vendia água de coco

Edvan tinha 13 anos e uma bandeja de cocos quando viu um homem voar com uma vela. Esta é a história do que aconteceu depois, contada por ele.

Por JERI Jericoacoara, CE Leitura de 4 min

Toda vila tem a história do dia em que o mundo chegou. Em Jericoacoara, ele chegou pelo mar, segurando uma vela. E tinha um menino olhando.

"Eu tinha 13 anos", ele conta. "Vendia água de coco na praia. Vi um cara fazer um mortal pra frente e fiquei louco. Pensei comigo: eu quero muito fazer isso."

Edvan de cabeça pra baixo no ar, prancha e vela contra o céu
Trinta anos depois: o mortal que hipnotizou o menino, executado por ele. Na água, pequeno, alguém olha.

A vila daquele tempo vivia de outra coisa. "Todo mundo vivia da pesca. Nosso passatempo era correr na rua, subir nas árvores e ficar na frente das fogueiras, comendo peixe e contando história." A luz elétrica era novidade; o vento, esse sempre esteve. Quando os primeiros velejadores começaram a chegar atrás dele, a vila começou a virar o que é. E o menino do coco continuou olhando.

Edvan adolescente na vila de Jericoacoara, à noite, entre os primeiros turistas
ARQUIVO PESSOAL · Edvan adolescente na vila, entre os primeiros visitantes.

O talento apareceu cedo; o resto veio de teimosia e de gente boa no caminho. "Percebi que o esporte podia mudar minha vida quando ganhei meu primeiro campeonato, aqui em Jericoacoara. Todo mundo dizia que eu tinha talento. E teve gente que fez tudo isso acontecer comigo." O ano era 2001, o mesmo em que ele viu a primeira vela. O menino que olhava da areia em janeiro terminou o ano no pódio.

Edvan pintando à mão a placa de madeira da própria escola de windsurf
ARQUIVO PESSOAL · A placa da JERI 250, a escola dele, pintada pelas mãos do dono.
O vento, pra quem trabalha com ele, é praticamente tudo.

"Aqui a gente cresce acostumado com os alísios, fortes e constantes por um período muito longo do ano. Lá fora, quando o vento falha, é que você vê quem é daqui. Pra quem está passeando, é só vento." É a vantagem injusta de nascer no lugar onde o mundo inteiro vem treinar: de julho a janeiro, o céu daqui vira escola.

Edvan montando a vela na areia com o mar pontilhado de velas ao fundo
O trabalho e a paisagem que ele criou: o mar de Jeri pontilhado de velas na temporada.

Hoje, aos 38, a vida dele cabe numa rotina que ele descreve sem cerimônia: treino de manhã, o trabalho na JERI 250, a escola dele na vila, e uma coisa inegociável. "Quando posso, velejo uma horinha por dia. Isso é sagrado."

No fim da conversa, pedimos que ele explicasse essa vida pra alguém que nunca veio. Ele não precisou de parágrafo:

"O paraíso é aqui. Não existe outro lugar assim no mundo."
Edvan voando rasante sobre o mar verde de Jericoacoara
O paraíso dele, em uso.
Gente de Jeri #gentedejeri · #modojeri

Esta peça nasceu como carrossel no feed da JERI. Lá tem a conversa; aqui, a versão que fica.

Ver no Instagram →
O vento também escreveu
O Vento MandaO ano aqui não tem 4 estações. Tem 2: vento e espera Gente de JeriModo Jeri: manual de instrução Segunda-feira em JeriA vila às 7 da manhã