Toda vila tem a história do dia em que o mundo chegou. Em Jericoacoara, ele chegou pelo mar, segurando uma vela. E tinha um menino olhando.
"Eu tinha 13 anos", ele conta. "Vendia água de coco na praia. Vi um cara fazer um mortal pra frente e fiquei louco. Pensei comigo: eu quero muito fazer isso."
A vila daquele tempo vivia de outra coisa. "Todo mundo vivia da pesca. Nosso passatempo era correr na rua, subir nas árvores e ficar na frente das fogueiras, comendo peixe e contando história." A luz elétrica era novidade; o vento, esse sempre esteve. Quando os primeiros velejadores começaram a chegar atrás dele, a vila começou a virar o que é. E o menino do coco continuou olhando.
O talento apareceu cedo; o resto veio de teimosia e de gente boa no caminho. "Percebi que o esporte podia mudar minha vida quando ganhei meu primeiro campeonato, aqui em Jericoacoara. Todo mundo dizia que eu tinha talento. E teve gente que fez tudo isso acontecer comigo." O ano era 2001, o mesmo em que ele viu a primeira vela. O menino que olhava da areia em janeiro terminou o ano no pódio.
"Aqui a gente cresce acostumado com os alísios, fortes e constantes por um período muito longo do ano. Lá fora, quando o vento falha, é que você vê quem é daqui. Pra quem está passeando, é só vento." É a vantagem injusta de nascer no lugar onde o mundo inteiro vem treinar: de julho a janeiro, o céu daqui vira escola.
Hoje, aos 38, a vida dele cabe numa rotina que ele descreve sem cerimônia: treino de manhã, o trabalho na JERI 250, a escola dele na vila, e uma coisa inegociável. "Quando posso, velejo uma horinha por dia. Isso é sagrado."
No fim da conversa, pedimos que ele explicasse essa vida pra alguém que nunca veio. Ele não precisou de parágrafo: