O Vento Manda · VM-01

A duna não está onde você a deixou

Todo mundo sobe. Quase ninguém sabe que ela está indo embora, devagar, na direção que o vento aponta. A física de uma montanha que anda, contada por quem mora ao lado dela.

Por JERI Jericoacoara, CE Leitura de 3 min

Existe um detalhe que separa quem visita Jeri de quem vive aqui: saber que a Duna do Pôr do Sol se move. Não no sentido poético. No sentido literal, medível, de uma montanha de areia que atravessa a paisagem alguns metros por ano, sempre na mesma direção, a que o vento aponta.

O mecanismo é simples e não para nunca. O vento chega pela face suave da duna, a rampa que todo mundo sobe no fim da tarde, e empurra a areia grão por grão até a crista. Lá em cima, cada grão fica por um instante em equilíbrio. Aí despenca pela face íngreme do outro lado, a que quase ninguém vê.

10⁶+
Grãos por dia. É a escala do trabalho invisível do vento: milhões de grãos subindo a rampa e despencando pela crista, todos os dias, há séculos. Nenhum deles volta.
A Duna do Pôr do Sol com pessoas minúsculas na crista
A escala de quem sobe contra a escala do que anda. Duna do Pôr do Sol, Jericoacoara.

Repetido milhões de vezes por dia, esse gesto minúsculo faz uma coisa extraordinária: a duna inteira avança mantendo a própria forma. A areia que estava atrás vira frente. A montanha que você subiu ano passado não é exatamente a mesma deste ano, nem está exatamente no mesmo lugar.

VENTO → CRISTA FACE SUAVE · O GRÃO SOBE FACE ÍNGREME O GRÃO DESPENCA A DUNA AVANÇA
Fig. 1 · Uma onda de areia em câmera lenta: sobe pela rampa, despenca pela crista, avança.
A duna é uma onda de areia em câmera lenta, atravessando a paisagem.

É por isso que o caminho de subida muda de um ano pro outro. É por isso que quem é daqui mede o tempo em posições da duna, não em datas. E é por isso que respeitar esse movimento não é poesia de fim de tarde: é planejamento. A duna não desvia de nada. Quem precisa se planejar é o que estiver na frente dela.

Da próxima vez que você subir pra ver o sol cair, olhe para os próprios pés por um segundo. Você está em cima de uma coisa que anda. Ela só é mais paciente que você.

O vento manda aqui #oventomanda · #modojeri

Esta peça nasceu como carrossel no feed da JERI. Lá tem a conversa; aqui, a versão que fica.

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