Existe um detalhe que separa quem visita Jeri de quem vive aqui: saber que a Duna do Pôr do Sol se move. Não no sentido poético. No sentido literal, medível, de uma montanha de areia que atravessa a paisagem alguns metros por ano, sempre na mesma direção, a que o vento aponta.
O mecanismo é simples e não para nunca. O vento chega pela face suave da duna, a rampa que todo mundo sobe no fim da tarde, e empurra a areia grão por grão até a crista. Lá em cima, cada grão fica por um instante em equilíbrio. Aí despenca pela face íngreme do outro lado, a que quase ninguém vê.
Repetido milhões de vezes por dia, esse gesto minúsculo faz uma coisa extraordinária: a duna inteira avança mantendo a própria forma. A areia que estava atrás vira frente. A montanha que você subiu ano passado não é exatamente a mesma deste ano, nem está exatamente no mesmo lugar.
É por isso que o caminho de subida muda de um ano pro outro. É por isso que quem é daqui mede o tempo em posições da duna, não em datas. E é por isso que respeitar esse movimento não é poesia de fim de tarde: é planejamento. A duna não desvia de nada. Quem precisa se planejar é o que estiver na frente dela.
Da próxima vez que você subir pra ver o sol cair, olhe para os próprios pés por um segundo. Você está em cima de uma coisa que anda. Ela só é mais paciente que você.